Simplicidades e complicações na vida de uma professora na entrada do século XX PDF Imprimir E-mail
Escrito por Ruth Salles e Julieta Mello e Souza Miranda   

Minha avó materna, a professora paulista Carolina Carlos de Toledo, casou-se com o professor carioca João de Deus de Mello e Souza e era, no fim do século XIX e no início do século XX, a professora da Escola Pública de Queluz, no vale do Paraíba.

Digo "a professora" porque era a única, pois todas as classes do então Curso Primário funcionavam numa sala só, que era simplesmente a sala da casa de minha avó. E ela, sozinha, dava aula para todas as classes simultaneamente, com dois filhos de oito e seis anos ajudando a distribuir e a recolher cadernos, e mais um bebê num bercinho de balanço que ela movimentava de vez em quando em meio às aulas. Dois outros filhos pequenos brincavam no quintal, e ainda havia duas filhas mais velhas que já moravam em São Paulo, com parentes do lado materno, e cursavam a Escola Normal da Praça da República, e mais um filho que estudava no Rio, no então "Gymnasio Nacional" (hoje "Colégio Pedro II"), como interno e sob a guarda de parentes do lado paterno.

As aulas terminavam às quatro horas da tarde, mas às vezes, se o bebê no berço não chorava, a conversa de minha avó com os alunos ia-se prolongando, até que, às quatro e meia, a empregada da casa, sem cerimônia alguma, abria a porta da sala e chamava: "Dona Sinhá! A janta tá na mesa!"

Depois do jantar, a filharada ainda brincava na calçada até começar a escurecer, quando então o acendedor de lampiões da rua vinha cumprir sua tarefa, a não ser que houvesse luar. Com lua cheia não se acendiam os lampiões. A cidade economizava assim o gás; mas, se uma nuvem encobria a lua, os notívagos corriam certo risco, e eram comuns os tombos por cima de animais que gostavam de se deitar no meio da rua - como foi o caso do "Cometa", vendedor ambulante, que rolara a barranca do rio Paraíba, escapando de cair dentro d'água, por ter tropeçado à noite num boi que dormia.

Era nessa hora do entardecer que minha avó recebia visitas de mulheres em busca de alívio para seus achaques. Explico: em Queluz não havia médico; em casos graves, o chefe do trem - quando o trem passava em direção a São Paulo - avisava o doutor em Cruzeiro, e este tomava o "rápido" de volta. Em casos simples, havia em Queluz o farmacêutico, que vendia poções e mezinhas, ungüentos, etc..., e minha avó, que dava, a quem precisasse, uns frascos de homeopatia - que seus parentes de São Paulo mandavam - ou então plantinhas para chás curativos, que ela cultivava no fundo do quintal.

Mas, às vezes, essa vida simples da professora era passível de se complicar num minuto. E agora dou a palavra a minha saudosa mãe - a filhinha de oito anos que ajudava na classe, e que mais tarde também foi professora e diretora de escola - transcrevendo aqui um dos capítulos de suas Memórias:

ERA UMA VEZ UMA VACA

Mas não era uma vaca qualquer. Ela entrava e saía pela porta da frente da casa de seus donos e passeava sua corpulência pelas ruas e praças de Queluz, onde era conhecida e respeitada. Todas as manhãs, depois de cumprir seu dever primordial, que era alimentar seu bezerro e fornecer leite para seus donos, ela saía, escoltada por um moleque, para pastar, ou, numa linguagem mais elegante, alimentar-se como fosse de seu agrado num vasto campo na entrada ou saída de Queluz. Entre três e quatro horas da tarde, ela voltava com seu acompanhante, entrava pela porta da sala e ia gozar da companhia do bezerro e dormir sem preocupações.

Um curioso perguntará:

- Por que a vaca usava a entrada social da casa? Eu esclareço. A entrada era social, mas era também privativa da vaca, porque o que havia naquele trecho era uma série de casas térreas, frente-de-rua, unidas umas às outras, com uma porta dando para a calçada e outra nos fundos, dando para o quintal.

Nós éramos vizinhos dos Coelho, donos da vaca, e eu tinha medo dela. Era um drama para mim: morar perto, parede e meia, de um animal que todos afirmavam ser manso e pacato e não ter coragem de me aproximar dele. Era grande e tinha chifres. Toda a sua aparência me atemorizava. O resultado é que nessa época - ano de 1901 - eu, que tinha apenas oito anos, nem podia gozar com calma a "aurora da minha vida e a minha infância querida", como disse Casimiro de Abreu, porque tinha medo de uma vaca.

Ora, numa tarde de verão, para melhor arejamento da sala, deixei a porta da rua aberta. A aula estava quase terminando, quando ouvimos um tropel dentro do pequeno vestíbulo que dava para a sala. Olhamos, e aí começou a gritaria e a confusão. A vaca errara de porta e ali estava, quase dentro da sala. As meninas gritavam, eu inclusive, e o bebê de minha mãe, com aquele barulho, pôs-se a chorar bem alto. Mamãe, aflita, procurava nos acalmar. Felizmente, o moleque descuidado veio salvar a situação, puxando o animal por uma corda presa a seu pescoço. Mas foi difícil, no pequeno espaço do vestíbulo, obrigar a vaca a executar uma rotação de 180 graus e sair. Ela teve mesmo de fazer a volta dentro da própria sala, o que aumentou o medo e a gritaria da criançada.

Daí por diante, passei a ter o cuidado de não deixar mais a porta aberta para arejamento. Preferia calor a vacas. Alguns anos mais tarde, meus conhecimentos se enriqueceram com o assunto atavismo e suas conseqüências. Achei ótima a teoria. Medo atávico! É tão cômodo a gente transferir a responsabilidade de nossas fraquezas e imperfeições para os ombros de um distante antepassado! Com um pouco de imaginação e até uma lógica razoável, poderia formular esta teoria: Mamãe era uma Toledo; Toledo lembra Espanha, e Espanha lembra touradas. Imagino um distante ancestral Toledo, forte e ousado, que resolveu ser toureiro. E encontrou pela frente um miúra mais forte e ousado que o pôs nocaute. Eis aí a razão do medo que veio vindo pelos descendentes e se incrustou em minha humilde pessoa.

Pela vida afora venho adquirindo variados medos: ciclistas em zigue-zagues, elevadores decrépitos, baratas voadoras e outros menores. Mas continuo fiel a meu medo de infância. Atavismo não se discute."

(Capítulo 11 do livro de memórias "De Longe venho", de Julieta Mello e Souza Miranda.)

 

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